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Lição XXXIV – Recortando no ataque

Já vimos como, em geral, é uma boa estratégia dar no corte do carteador. Uma situação em que dar no corte do carteador é ainda mais vantajoso é quando seu parceiro também corta o naipe, jogando depois do carteador. Em outras palavras, quando o ataque pode recortar o carteador.

Sabemos que é uma grande vantagem jogar depois do adversário, tirando vantagem da posição de suas honras. O mesmo acontece com os trunfos. As honras de trunfo ficam ainda mais poderosas quando seu dono pode jogá-las depois do carteador.

Vejamos um exemplo simples:

Espadas são trunfos, e Sul é o carteador. Aparentemente, o carteador faz todas as vazas. Mas, se quem joga é Este, o ataque consegue arrancar uma vaza neste final. Este sabe que apenas ele tem paus, e portanto joga o naipe, na esperança de conseguir um recorte lucrativo com as honras de trunfo de Oeste. E é isso o que acontece. O carteador tem que escolher: ou ele corta com o Dez, ou com a Dama de espadas. Se ele corta com o Dez, Oeste recorta a vaza, fazendo seu Valete; se ele corta com a Dama, Oeste balda um ouros, e agora seu Valete de espadas também termina fazendo uma vaza. Note que, se Este jogar copas, todos servem, e o carteador tira os trunfos. A única forma de transformar o Valete de trunfos em uma vaza é jogar algum naipe que Oeste possa recortar.

O que ocorreu aqui é análogo à posição de uma honra sobre uma forquilha adversária. É claro que não há uma forquilha real, mas fica mais fácil entender o princípio se compararmos os dois tipos de jogada, vendo como a posição das honras é favorável ao ataque.

A próxima mão tem uma posição mais parecida com uma forquilha

Espadas são trunfos, e Sul é o carteador. Mais uma vez, Oeste pode recortar o carteador se Este jogar ouros. Teoricamente, Oeste só tem uma vaza de trunfos, pois as honras de Sul são suficientes para arrancar o Ás de espadas e depois tirar trunfos. Porém, se o parceiro jogar um naipe que você e o carteador cortam, a mágica da posição favorável funciona. Se Este joga ouros, o carteador provavelmente cortará com uma honra, pois ele sabe que o Cinco será recortado. Talvez você se sinta tentado a recortar com seu Ás, mas basta pensar e analisar a posição para ver que isso não é uma boa jogada. Seu Ás sempre fará uma vaza. Depois de seu recorte, você jogará algo que o carteador ganhará, e ele imediatamente tirará seus trunfos.

Veja o efeito de simplesmente descartar algo nesta vaza. Seu Nove, na realidade, foi promovido, pois o carteador perdeu uma honra de trunfos (sem que Oeste tenha sido obrigado a servir trunfos). Você balda, e o carteador começa a tirar trunfos, jogando uma honra, mas agora ele tem apenas 3 honras, e assim o seu 9 acaba fazendo mais uma vaza.

Vejamos uma mão completa:

Sul esta carteando 4 Copas. Como seu parceiro marcou espadas no leilão, você, Oeste, sai espadas. Seu parceiro faz a vaza com o9. Seu parceiro sabe que você está na posição ideal para recortar o carteador, e assim ele joga uma honra de espadas. Sul corta com o J. Se você agora fizer a bobagem de recortar com oA, você só fará 2 vazas de trunfo. Se você descartar, você terminará com 3 vazas de trunfo, derrubando o contrato.

Vejamos como o carteador pode se defender de posições como essa. Na mão em discussão, o carteador cometeu um erro ao cortar com uma honra. Se ele cortar com uma carta pequena, você pode recortar ou baldar, não há diferença — nos dois casos você termina com apenas 2 vazas de trunfo. O carteador poupou suas honras para conseguir tirar seus trunfos.

QUE CARTA USAR AO DAR UM RECORTE

Nem sempre a posição é tão clara. O jogador que está começando a vaza frequentemente enfrenta um dilema. Ele quer jogar um naipe em uma posição de recorte, mas ele precisa decidir se joga uma honra ou uma pequena — e jogar a honra pode, potencialmente, estabelecer uma outra honra no morto.

Por exemplo:

Você está em Este, atacando um contrato de 5 Paus. Você marcou copas no leilão, e por isso o parceiro sai com o 8, a mais alta de um doubleton. Você faz a vaza com o 10. Na vaza 2, você joga o A, e todos servem. Agora, criou-se uma posição de recorte. O problema é que, se você jogar o K na vaza 3, a Dama do morto ficará firme, potencialmente dando um descarte importante ao carteador. Numa posição como essa (e em várias outras semelhantes), principalmente porque você só precisa de mais uma vaza para derrubar o contrato, é melhor atacar com uma carta pequena para produzir o recorte. O carteador não pode descartar, pois seu parceiro corta a vaza. Se ele cortar, a vantagem do recorte se torna operante. Se você tivesse atacado com uma honra, como o carteador tem mais honras de trunfo do que o necessário, ele pode cortar de grande, tirar trunfos, e depois descartar sua perdedora de ouros na Dama de copas. Ao jogar pequena, você tem a vantagem da posição do recorte, sem abrir mão de sua honra no naipe.

É claro que outros fatores (por exemplo, a falta de entradas no morto) poderia transformar a jogada de uma honra de copas em uma boa jogada.

Em geral, se você é o carteador e está sujeito a uma posição dessas, uma estratégia atraente sempre é recusar a cortar, descartando alguma perdedora já estabelecida. Veja o próximo exemplo:

Você está carteando o contrato de 4 Espadas, recebendo a saída do 8. Este faz a vaza com o J, e continua com o A. Na vaza 3, ele joga um pequeno paus. Parece natural cortar (você tem todas as honras, afinal de contas), mas qual a serventia disso? Se você cortar você simplesmente entregará uma copas no final (fazendo 5 espadas, 4 ouros, e 1 copas), depois de tirar trunfos; mas se você não conseguir tirar trunfos (veja o diagrama — pouco provável, mas por que arriscar?), você não conseguirá fazer todas as vazas de ouros. Muito mais simples e eficiente é descartar sua perdedora segura em copas nesta vaza.

RESUMO

No que se refere a posições de recorte, lembre-se sempre das seguintes dicas:

(a) Como carteador, sempre busque descartar uma perdedora estabelecida em uma posição de recorte; se é uma vaza que sempre será perdida, tanto faz perdê-la agora ou depois.

(b) Como atacante, nunca recorte sem analisar a posição: principalmente quando você tem cartas menores que podem ser promovidas, em geral é melhor não recortar com uma honra.

(c) Como atacante, ao jogar um naipe que seu parceiro recorta, em geral é melhor não firmar uma vaza no morto, atacando com uma carta pequena, principalmente se você só precisa de mais uma vaza no ataque.

Lição XXXIII – Atacando trunfo

Sabemos que uma das vantagens de se cartear um contrato em trunfos é que você consegue cortar perdedoras no lado curto. Quando isso acontece, o carteador frequentemente consegue fazer 2 ou mais vazas a mais do que faria em um contrato carteado em Sem-Trunfos, e por isso ele precisa de menos honras. É por esta razão que, quando estamos avaliando nossa mão no leilão, valorizamos um bom apoio de 4 ou mais cartas acompanhado de um naipe curto (uma seca ou chicana).

Por sua vez, os atacantes estão sempre buscando formas de atrapalhar os planos do carteador. Já vimos como os atacantes tentam firmar suas próprias honras antes do carteador conseguir firmar suas honras para estabelecer descartes; como o ataque, às vezes, dá no corte do carteador e consegue ficar com mais trunfos do que ele; como o ataque pode fiar uma honra para atrapalhar as comunicações entre a mão do carteador e o morto, ou arrancar uma entrada do morto com o mesmo objetivo.

Dentre as manobras à disposição do ataque está a remoção dos trunfos do lado curto (em geral, o morto), impedindo assim que o carteador tire pleno proveito dos mesmos. A maneira mais fácil de fazer isso é simplesmente jogar trunfo. Se você vê que o morto tem um naipe curto, e ao mesmo tempo observa que o carteador não está tentando tirar trunfos, é praticamente certo que o carteador tentará, em algum momento, cortar perdedoras no tal naipe curto. Se o morto não tem uma abundância de trunfos, você pode estragar este plano jogando trunfos — antes que o carteador consiga cortar suas perdedoras. É claro que não devemos fazer isso quando estamos abrindo mão de uma vaza no naipe de trunfos, mas as oportunidades, mesmo assim, são muito comuns.

Veja a mão seguinte, onde você é Este, atacando o contrato de 4 Espadas por Sul.

O parceiro sai com o J, e o morto joga pequena. Seu primeiro problema é decidir o que fazer nesta vaza. É bem provável que o Rei esteja com o carteador, pois uma saída por debaixo de Rei-Valete nem sempre é atraente. Se este Rei estiver seco e você jogar pequena agora, o carteador fará esta vaza, e você não fará seu Ás. Por outro lado, se você jogar o Ás agora e o cateador tiver mais de uma carta no naipe, ele terminará com 2 vazas em ouros, embora só fizesse uma caso você jogasse pequena. É um dilema, mas em geral é melhor jogar pequena e garantir que o carteador só fará uma vaza no naipe — mesmo que ele tenha o Rei seco, talvez, caso você entre com o Ás, a Dama da mesa ainda sirva para algum descarte útil (ou seja, tanto faz se você joga ou não o Ás).

Assim, você joga o 9, e o carteador ganha a vaza com o K. O carteador joga o 10, e você faz a vaza com o J. O plano do carteador é bastante claro: ele está eliminando as copas da mesa com o objetivo de fazer cortes no morto. O máximo que você pode fazer para atrapalhar seus planos é jogar trunfo agora. É o que você faz. O carteador joga outra copas: você ganha a vaza, e joga outro trunfo. Agora, o carteador conseguirá cortar uma copas no morto, mas uma não é o suficiente! Ele precisava cortar duas para chegar a 10 vazas (2 cortes, 5 trunfos, 1 ouros, 2 paus). Eventualmente, ele vai perder uma outra vaza em copas e o Ás de ouros, caindo uma.

Note que o fator tempo foi mais importante do que na maioria das mãos. Toda a mão foi uma corrida entre o ataque e o carteador. O carteador não tinha tempo para fazer 2 cortes na mesa, e vocês não tinham tempo para impedir que ele fizesse um corte. Se seu parceiro tivesse a inspiração de sair trunfo, vocês teriam conseguido impedir todos os cortes.

Note que a decisão da vaza 1 (fiar ou entrar com o Ás de ouros) pode ter sido inócua… se você estiver atento para a estratégia de tirar trunfos. Afinal de contas, uma outra forma de derrubar a mão é entrar com o Ás de ouros e usar este tempo para tirar um trunfo do morto. Se o ataque fizesse isso, o carteador não conseguiria cortar nenhuma copas na mesa; ele terminaria com uma vaza de ouros a mais, e um corte a menos, o que daria o mesmo resultado, uma down.

Veja outro exemplo:

Às vezes a necessidade de atacar trunfos é ainda mais clara. Você está em Este, atacando o contrato de 4 Espadas depois da saída de K. Seu melhor ataque (principalmente em razão de sua pega em ouros, que garante que o carteador não correrá este naipe) é claramente cobrir com o A, para jogar imediatamente duas vazas de espadas. Isso acaba com os trunfos da mesa e impede que o carteador corte uma copas. Quando ele fizer a finesse de ouros, o ataque pode fazer todas as vazas de copas à disposição (no caso, apenas uma). É claro que, cartas à vista, não é necessário cobrir a saída, pois seu parceiro pode jogar trunfos sozinho. Mas se você sabe qual é o ataque certo e pode assumir o controle, sempre é melhor fazer isso ao invés de depender da possibilidade de seu parceiro concordar com você!

ATACANDO TRUNFOS DESDE A SAÍDA

Às vezes é necessário começar a atacar trunfos antes mesmo de ver o morto, ou seja, na saída. Para que o atacante diagnostique isso, ele precisa analisar corretamente o leilão. As informações fornecidas durante o leilão são fundamentais para que o saidor consiga estimar as distribuições dos naipes e assim determinar que a saída de trunfo é necessária.

A posição mais comum em que a saída de trunfos é clara é quando as seguintes condições se reúnem:

  1. O carteador mostrou dois naipes
  2. O morto preferiu um deles, sem muito entusiasmo
  3. Você, saidor, possui honras importantes no naipe lateral (aquele que não foi escolhido como trunfo)
  4. Você não tem vaza clara em trunfo, nem comprimento extremo (um trunfo, ou 4 ou mais trunfos), o que indicaria a possibilidade de um ataque diferente — o de dar no corte do carteador — ter sucesso.

Quando tudo isso acontece, parece claro que o carteador pretende tirar proveito dos (poucos) trunfos da mesa para cortar perdedoras no naipe lateral (onde você tem honras), e por isso o ataque em trunfos é recomendado. Vejamos um caso real:

Leilão (livre), com Sul sendo o dador:

1♦     1♥

2♣     2♦

3♣     3♦

P

Sul, com uma bela mão, tentou ir a game. Encontrou uma mão sem muito fit à sua frente, e pior ainda, os paus encostados atrás dele. Norte não mostrou entusiasmo, muito pelo contrário. Todas as indicações estão presentes, e Oeste precisa começar o ataque com um pequeno trunfo.

Por que um pequeno trunfo, e não o Ás? Por duas razões. A primeira é que assim você mantém o controle do naipe de trunfos; você pode mudar de ideia depois de ver o morto, sem ceder este controle ao carteador. A segunda é manter um trunfo na mão do parceiro para que, caso ele faça a primeira vaza do ataque, ele possa continuar trunfos.

Mas o que interessa nesta mão não é a carta específica a ser saída, e sim a decisão de sair trunfos. Agora você está um tempo à frente do carteador, e ele não conseguirá cortar nenhum paus na mesa. Veja como segue o carteio: o morto faz a primeira vaza, e o carteador faz uma finesse em paus (qualquer uma — no caso, está tudo mal posicionado para ele). Você continua jogando trunfos, batendo seu Ás e jogando o terceiro trunfo. O carteador provavelmente fará outra finesse em paus. Moral da estória: o ataque termina fazendo 1 ouros, 3 paus, e 1 copas, 1 down.

Se você não tivesse saído trunfo, você teria desperdiçado um tempo precioso. Digamos que sua saída fosse espadas (o naipe não falado). O carteador ganharia na mesa e faria uma finesse. Você provavelmente perceberia que deve jogar trunfo agora, mas já é tarde demais. O morto ainda tem um trunfo, e o carteador cortará um paus na mesa, eliminando assim uma vaza do ataque, que terminará com 1 ouros, 1 espadas, e apenas 2 paus.

RESUMO

Atacar trunfos é uma maneira eficaz de reduzir as vazas de corte à disposição do carteador. Quando o carteador está contando com cortes no lado curto para alcançar as vazas necessárias ao contrato, você precisa, o mais rápido possível, jogar trunfos. De preferência, desde a saída, quando o leilão indica que o carteio correrá por essas linhas. 

Lição XXXII – Jogando no corte do carteador

 

No ataque em Sem-Trunfos, observamos que em geral não vale a pena jogar um naipe onde você possui uma forquilha, pois (considerando-se o naipe isoladamente) é sempre mais vantajoso deixar que outros jogadores, incluindo seu parceiro, mexam nesse tipo de naipe. O mesmo princípio se aplica ao ataque contra contratos em trunfo, com a diferença de que é mais comum encontrarmos mãos em que é necessário arriscar e jogar um naipe desse tipo, por causa do fator tempo. Contra um carteador que possui um naipe de trunfo, temos menos tempo para desenvolver nossos naipes.

Podemos dizer que, como regra geral, é sempre bom deixar o carteador mexer em um naipe. A melhor forma de obrigar o carteador a jogar um naipe no qual você tem interesse é jogar um outro naipe onde ele tem chicana. Este tipo de jogada produz dois benefícios: você reduz o número de trunfos na mão do carteador, e o obriga a jogar algum outro naipe, possivelmente beneficiando o ataque. É um caso específico do que chamamos de ataque passivo. Nas mãos em que o carteador não tem à sua disposição uma grande quantidade de trunfos, isso pode inclusive se tornar um ataque bastante agressivo, pois, forçando o carteador a cortar, pode ocorrer que um dos atacantes fique com mais trunfos do que ele! Quando isso acontece, dizemos que o carteador perdeu o controle da mão e isso normalmente produz muitas vazas para o ataque.

Vamos apresentar alguns exemplos desta estratégia. Na vida real, o sucesso da estratégia não precisa ser tão estrondoso quanto nos próximos exemplos; na grande maioria das mãos, dar no corte do carteador não produz muito. Mas o importante é que fazer isso não custa nada, e é uma manobra típica para se incomodar um carteador, mesmo que não produza vazas adicionais.

Por exemplo, na mão seguinte, ao dar no corte do carteador, você derruba um contrato que parece bastante sólido:

Você está em Oeste contra o contrato de 4 Copas por Sul. A primeira coisa que você deve fazer (antes mesmo de sair) é observar seus quatro trunfos, que certamente vão incomodar o carteador. Com este tipo de figuração em trunfos (comprimento, sem muitas honras), quase sempre é correto atacar em seu naipe mais forte, visando, precisamente, dar no corte do carteador. Mesmo que o carteador corte uma vaza no naipe, isso terá reduzido o total de trunfos em sua mão, e sua própria figuração em trunfos ficará mais ameaçadora por causa disso.

Assim, você sai com oA. Após fazer a primeira vaza, você continua com a Q. O carteador corta e estuda a situação. Se os trunfos estiverem 3-2, o contrato está garantido — ele tirará os trunfos e fará a finesse de ouros, perdendo, no máximo, 1 ouros, 1 espadas, e 1 paus. Assim, ele começa a tirar trunfos, jogando copas para o K, e depois copas para o A. Como os trunfos estão 4-1, ele nota que, se ele continuar tirando trunfos, ficará sem trunfos, com o naipe de paus completamente aberto para o ataque. Prudentemente, ele prefere fazer a finesse de ouros agora. Seu parceiro ganha a vaza com o K, e a posição agora é:

Se seu parceiro não conhece o valor de dar no corte do carteador e, tolamente, joga a Q, na esperança de estabelecer uma vaza neste naipe, o carteador faz a vaza, termina de tirar trunfos, e faz todos os ouros, entregando uma vaza de espadas no final. Mas se seu parceiro conhece essa estratégia e percebe (pela linha de carteio) que o carteador está incomodado com a figuração de trunfos em Oeste, ele continua jogando paus, obrigando o carteador a cortar, e agora ele tem um trunfo a menos do que você. O contrato está condenado. O melhor que o carteador pode fazer é jogar ouros até que você corte. O ataque ainda fará uma vaza em espadas.

Note que o ataque só foi bem sucedido porque o morto tinha quatro cartas de paus, e portanto não conseguiu cortar a vaza quando o ataque insistiu em paus. Se o morto tivesse menos paus e, no momento decisivo, não tivesse mais cartas neste naipe, a estratégia não teria tido sucesso, pois vocês não teriam conseguido dar no corte do carteador (ou, mais precisamente, do lado longo); o corte teria sido feito no morto, o lado curto. Quando você dá no corte do lado curto, você não reduz a quantidade de trunfos à disposição do carteador para o propósito de tirar trunfos; pelo contrário, você permite que ele faça um corte do lado curto e assim aumenta o número de vazas do carteador. Parte do plano do carteador inclui fazer cortes do lado curto. Portanto, se você jogar um naipe cortado pelo lado curto, em geral, você está ajudando o carteador.

A situação é pior ainda quando você joga um naipe que o carteador pode cortar na mão ou no morto (o que chamamos de corte-e-balda). Quando você faz isso, o carteador, na prática, se livra de uma perdedora em um terceiro naipe enquanto corta do lado curto, ou seja, você permite que o carteador faça mais vazas de uma forma que não era possível sem seu auxílio!

Veja um final que serve de exemplo disso:

As copas são trunfos, e você está em Oeste. Você é quem joga. Se você jogar o A, o carteador pode cortar na mesa e descartar uma espadas ou um paus de sua mão (ou cortar na mão e descartar uma espadas ou um paus do morto). Ele termina com 4 vazas: 2 Ases e 2 trunfos. Mas se você jogar espadas (ou paus), ele termina com apenas 3 vazas (2 Ases e 1 trunfo), pois não consegue cortar nada em lado nenhum. Na prática, jogar ouros permite que o carteador desdobre os trunfos, e faça 2 vazas no naipe (ao invés de uma). É por isso que o ataque de corte-e-balda deve ser sempre evitado, principalmente pelo principiante; as situações em que ele pode ser proveitoso (e que serão estudadas futuramente) são raras, as situações em que ele prejudica o ataque são muito comuns.

Mesmo quando você tem apenas três trunfos pode ser proveitoso dar no corte do carteador. Na próxima mão, todas as indicações favorecem esta linha de ataque, a principal delas sendo que o morto está longo no naipe do ataque:

Sua saída contra 4 Copas por Sul é o A, e você continua com o K. O carteador corta a segunda vaza e começa a tirar trunfos. Quando você faz a vaza com seu Ás, você continua com as espadas, dando mais uma vez no corte do carteador. Agora, ele já cortou duas vezes, e portanto está igual em trunfos a você (ele tinha 2 a mais quando começou a mão, mas estes 2 trunfos já se foram). O carteador não tem escapatória. Ele pode tirar seu último trunfo e fazer suas vazas de ouros (8 vazas no total: 4 copas e 4 ouros), mas depois você fará todas as vazas restantes com seu Ás de paus e as espadas firmes. Se ele jogar melhor, ele vai aceitar o resultado de uma down, parando de jogar trunfos depois da segunda rodada do naipe e jogando ouros para que você corte. Assim, você fará 3 Ases e 1 corte, 1 down. Estude a posição até se convencer de que, se você não insistir desde a saída no ataque em espadas, o carteador cumprirá o contrato com facilidade.

Não se iluda — nem sempre é vantajoso dar no corte do carteador. Esta estratégia é útil quando o número de trunfos com o carteador é limitado e quando ele não vai tirar proveito da oportunidade cedida a ele (quando ele corta), descartando alguma perdedora de sua mão em um naipe da mesa. Você sempre deve se precaver contra esta situação quando está decidindo se vai dar no corte, ou não.

O sinal mais claro de que dar no corte talvez não seja a estratégia correta é um naipe longo e firme (ou quase firme) no morto. Em situações como essa, vale a pena considerar a alternativa de atacar um naipe lateral diretamente (ao invés de dar no corte do carteador), tirando proveito da mão que está com você (lembre-se, nos contratos em trunfo o fator tempo é ainda mais importante do que nos contratos em Sem-Trunfo). Vejamos um exemplo:

Sua saída contra 4 Copas por Sul é o A. Seu parceiro serve o 6, e, quando o carteador joga o 2, você sabe que seu parceiro não tem honras ou doubleton no naipe, pois o 6 é a menor carta (ou seja, é um sinal desencorajador). Digamos que você continue com o K, segundo a teoria de que, como o parceiro deve ter 3 espadas, o carteador tem 2, provavelmente (depois do sinal de seu parceiro) encabeçadas pela Dama. Depois desta vaza você precisa decidir o que fazer. Uma opção é continuar o ataque em espadas, que parece seguro e (ao dar no corte do carteador) já começa a reduzir os trunfos adversários. Porém, os ouros da mesa parecem imponentes — há a possibilidade do carteador, se tiver tempo, se livrar de perdedoras em paus descartando-as nos ouros da mesa. É o que ocorre neste caso, em que o carteador tem os trunfos sólidos e o Ás de ouros; se você continuar espadas, ele fará as próximas 10 vazas (5 copas e 5 ouros), descartando 2 paus de sua mão nos ouros. Para se prevenir contra esta possibilidade, você deve jogar paus agora. Ao fazer isso, seu parceiro pode fazer 2 vazas no naipe que, somadas às vazas já feitas em espadas, derrubam o contrato.

(Em lições futuras veremos como Este pode ajudar o parceiro, com sinalizações adequadas, a tomar a decisão correta).

Uma outra possibilidade que deve ser avaliada pelo atacante é a possibilidade desta estratégia firmar uma vaza no morto. Isto ocorre quando você precisa jogar uma honra para obrigar o carteador a cortar, e assim firma uma honra menor no morto. Quando há a chance disto ocorrer, costuma ser melhor mudar de naipe (seguindo os princípios da Lição XXXI). um exemplo:

Você sai com oA contra 4 Espadas de Sul, seu parceiro joga o 5, e o carteador joga o ♣10. Você tem uma boa noção da distribuição neste naipe; como seu parceiro jogou a menor carta em sua mão, ele não pode ter 2 cartas de paus. Ele pode ter uma seca, ou então, ele tem três cartas no naipe. Se ele tiver uma seca, você pode continuar o naipe, permitindo que ele corte a terceira vaza. Mas se ele tiver três cartas, quem tem a seca é o carteador, e jogar o ♣K estabelecerá a Dama da mesa, na qual o carteador poderá descartar alguma carta pequena de sua mão.

Digamos que você decida não correr o risco. (Esta decisão é sempre pautada pelo leilão, mas isso é assunto para uma outra lição). Se você vai trocar de naipe, é natural trocar para ouros, um naipe onde o morto possui uma honra curta (forte do morto). Você também tem uma boa figuração em ouros, que ajudará o parceiro se ele tiver algumas honras ali. Assim, você joga o 10. O carteador joga pequena do morto, e seu parceiro joga o 6 — uma carta alta, pois faltam o 3 e o 2. O carteador faz a vaza, tira dos trunfos com o Ás e o Rei, e depois joga Ás e Rei de copas, pretendendo cortar uma copas na mesa.

Quando ele joga copas para cortar na mesa, seria um erro grave cortar com sua vaza firme de trunfos. Se você fizer isso, o carteador simplesmente baldará um ouros perdedor da mesa, ficando com apenas uma perdedora neste naipe. Assim, você balda, e o carteador corta na mesa. Ele volta para a mão cortando paus, e joga outra copas, sobre a qual você novamente balda. Ele corta mais um paus na mão, mas agora ele precisa jogar ouros; seu parceiro faz 2 vazas no naipe, e você faz a última vaza do jogo com aQ, derrubando o contrato. Veja que se você jogasse paus na vaza 2 ele não teria dificuldade em cumprir o contrato.

Nem sempre será fácil decidir o que fazer em situações como essa. Às vezes, trocar de naipe será mais perigoso do que continuar com o naipe da saída (e correr o risco do carteador cortar). E às vezes você consegue “consertar” a situação, mesmo quando você acabou de firmar uma vaza no morto:

O adversário parou em 4 Espadas. Você, em Oeste, sai com oA, e seu parceiro sinaliza 2 cartas no naipe (mostrando vontade de cortar a terceira rodada) com o 9. O carteador joga o 5. A carta do parceiro não pode ter sido jogada com 3 cartas (não há 2 cartas maiores do que o Nove para fora), e assim você sabe que ele tem 1 ou 2 cartas no naipe. Você então continua o naipe, jogando o K. Todos servem, ou seja, infelizmente seu parceiro não pode cortar a terceira rodada sem que o carteador recorte. Mas isso não parece ruim: você está dando no corte do carteador e ao mesmo tempo eliminando uma honra firme do morto, que poderia ser usada para descartes da mão do carteador. Assim, você insiste com os paus. O parceiro corta, e o carteador recorta, mas o momento decisivo já passou: o carteador sempre perderá uma espadas e uma copas.

É claro que, se você tivesse trocado para copas na vaza 2, você também teria derrubado o contrato. Mas se você tivesse feito isso, você teria perdido a chance da seca de paus com seu parceiro.

OBRIGANDO O MORTO A CORTAR

Dissemos anteriormente que sempre devemos tentar dar no corte do lado longo, e que dar no corte do lado curto produz vazas para o carteador. Como todas as regras do Bridge, essa também tem suas exceções. Às vezes vale a pena dar no corte do morto (lado curto), produzindo de fato uma vaza para o carteador mas eliminando uma entrada importante do morto, que, se deixada de lado, significaria ainda mais vazas para o carteador. Por exemplo:

Você é Este, atacando o contrato de 4 Copas. Seu parceiro sai com o 2, e você faz as duas primeiras vazas com seu Ás e Rei. Parece claro que os planos do carteador incluirão utilizar o comprimento de ouros no morto como fonte de vazas. Como você tem 3 ouros de Dama, o naipe está bem dividido (se o carteador tiver 2 cartas ali). E a terceira vaza de copas (que pode ser ganha com a Dama da mesa) servirá de entrada para estas vazas firmes em ouros. O que você pode fazer para impedir isso?

Você pode jogar a terceira espadas na vaza 3. Você sabe, pela saída do parceiro que o carteador tem pelo menos 3 cartas de espadas — afinal de contas, saímos na 4ª carta de cima para baixo, e portanto a saída de 2 não pode ser feita com 5 cartas no naipe. O morto é obrigado a cortar, e agora o carteador não pode mais firmar os ouros e entrar na mesa com o terceiro trunfo (tirando, simultaneamente à entrada, todos os trunfos dos adversários). Ele acabará perdendo 2 paus de sua mão.

Note o que teria ocorrido se você tivesse feito outra coisa. O carteador, ao pegar a mão, jogaria 2 honras de trunfo de sua mão, depois jogaria 3 rodadas de ouros, cortando a terceira. Agora seria simples entrar na mesa com o terceiro trunfo para correr os ouros.

 

RESUMO

Em geral é vantajoso jogar um naipe que será cortado pelo lado longo, pois reduz os trunfos do carteador, sem produzir qualquer vaza adicional. Isso é particularmente bom quando um dos atacantes está longo em trunfos. 

Não devemos tentar dar no corte do carteador quando o morto tem um naipe longo e firme (ou quase firme), ou quando podemos firmar uma honra do carteador com esta jogada — a não ser que possamos eliminar esta honra firme, obrigando o parceiro a cortá-la com uma figuração insignificante em trunfos.

Lição XXXI – Quando mudar de naipe no ataque

 

Estamos estudando o ataque de contratos com trunfo, que, diferentemente do ataque contra contratos em Sem-Trunfos, possui uma grande diversidade de enfoques estratégicos. Em Sem-Trunfos, você quase nunca desvia o ataque depois da saída, tendendo sempre a continuar buscando estabelecer o naipe que a dupla escolheu por ocasião da saída. De maneira geral (em Sem-Trunfos), você só cogita em mudar o ataque se uma das seguintes condições se apresenta:

  • Você está razoavelmente convicto de que seu próprio naipe tem mais chance de produzir as vazas necessárias;
  • é evidente que a mão do parceiro não tem entradas;
  • é importante eliminar alguma entrada vital do morto;
  • ou, se as honras deste naipe te impedem de atacá-lo imediatamente (você precisa que seu parceiro pegue a mão e jogue o naipe de lá para cá).

O ataque contra contratos em naipe é mais dinâmico. A razão disso, evidentemente, é a presença do naipe de trunfo, que dá muito mais controle ao carteador, e faz com que o ataque tenha que buscar novas fontes de vaza com mais pressa. Assim, mudar de naipe é muito mais frequente, e o atacante precisa estar atento para todas as possibilidades.

Veja o exemplo a seguir, no qual o atacante precisa mudar de naipe imediatamente.

 

Você está em Este contra o contrato de 4 Espadas, por Sul. Seu parceiro sai com o 6, e você faz a primeira vaza com o Ás. Se o contrato fosse em Sem-Trunfos, não haveria problema, e você continuaria atacando o naipe de ouros. Porém, como as espadas são trunfos, jogar ouros agora não produz muita coisa, mesmo que o parceiro possa ganhar a vaza. Ele será obrigado a começar a terceira vaza, e não vai poder fazer nada de útil.

Qual é a sua melhor chance de derrubar o contrato? É evidente que, se seu parceiro tiver honras em espadas ou em paus, ele as fará, independentemente do que você vier a fazer. Sua única chance de aproveitar a vantagem posicional adquirida na saída — o fato de que você está com a mão — é atacar o naipe de copas. Talvez seu parceiro tenha alguma combinação de honras que precise ser atacada pelo seu lado. Assim, você abandona momentaneamente os ouros, e joga o 2. Isto é suficiente para que seu parceiro faça 2 vazas em copas e o K, derrubando o contrato.

Se você jogar ouros na segunda vaza, o carteador cumprirá o contrato. Seu parceiro não pode jogar copas sem entregar uma vaza ao carteador, e por isso ele provavelmente jogará paus. O carteador fará 6 espadas e 4 paus, descartando uma de suas copas perdedoras na quarta vaza de paus do morto.

Às vezes você precisa trocar de naipe quando você sabe que o parceiro vai fazer as próximas vazas no primeiro naipe, mas não tem informação suficiente para trocar por conta própria. Por exemplo:

Mais uma vez você está em Este, agora atacando um contrato de 5 Ouros, e seu parceiro sai com o K. Pare e analise a situação. Você sempre fará uma vaza em trunfos. É provável que você também faça uma vaza em espadas (isso ocorrerá a não ser que o carteador corte a saída), mas será que você vai conseguir fazer 2 vazas ali? Se conseguir, ótimo, mas se o carteador tiver uma seca de espadas, ele cortará a segunda vaza deste naipe. É possível que você consiga fazer uma vaza de paus depois, mas também é possível que o carteador consiga se livrar de suas eventuais perdedoras de paus no naipe de copas, fazendo suas 11 vazas por meio de 4 copas, o Ás de paus, e 6 vazas de ouros. Aquela quarta copas no morto parece bastante perigosa.

Pensando nisso tudo, seu melhor ataque é cobrir a saída com seu Ás, e trocar imediatamente de naipe, jogando o K. Isto assegura a queda do contrato, pois, quando você fizer sua vaza de trunfos, você pode bater uma vaza em paus. Note que, se você não tomar a iniciativa na primeira vaza, o mais provável é que o parceiro continue jogando espadas. O carteador corta, arranca seu Ás de trunfos, e tem o tempo necessário para descartar seu paus perdedor, cumprindo o contrato.

Não há risco nenhum nessa jogada. Se o carteador tivesse 2 espadas originalmente, você poderia fazer sua segunda vaza de espadas mais tarde.

Também mudamos de naipe quando o jogador na terceira posição vê uma chance de estabelecer um corte. A presença de uma seca, ou às vezes de um doubleton, em sua mão deve sempre trazer essa possibilidade à mente. Por exemplo, seja Este na próxima mão, atacando o contrato de 4 Copas por Sul:

Aparentemente, o carteador perde apenas 2 espadas e 1 paus, terminando com 10 vazas. Mas o ataque correto consegue derrubar a mão em duas vazas.

Seu parceiro sai com o K, e você precisa cobrir com seu Ás para jogar sua seca de paus. Seu parceiro não deve ter dúvida nenhuma sobre sua intenção — porque você estaria atacando um naipe tão poderoso do morto se não fosse para cortar? Assim, ele faz a vaza com o Ás de paus e joga paus para seu corte. Agora você joga espadas, e ele ganha a vaza e lhe dá um segundo corte de paus.

O mesmo princípio pode ser usado quando você tem um doubleton, se o ataque tiver alguma pega de trunfos. Veja:

Oeste sai com o 2 contra o contrato de 4 Espadas por Sul. Você faz o Ás e sabe (pela saída) que o carteador só tem mais uma carta de ouros; esta carta deve incluir uma honra (o Rei ou a Dama), pois caso contrário seu parceiro teria saído com o Rei de ouros. Não há nada a se fazer com os paus. A situação dos trunfos está fora de seu controle — se o carteador tiver vaza a se perder ali, ele a perderá sempre. Só lhe restam as copas.

Assim, você joga o 9 (a mais alta com duas cartas). O carteador joga pequena, e Oeste faz a vaza com o Rei, aproveitando para continuar jogando copas na vaza 3. Mais tarde, ele fará o Ás de espadas e lhe dará um corte de copas, derrubando o contrato.

Outra situação em que trocamos de naipe é quando há o risco de se firmar uma honra no morto. Por exemplo, você é, mais uma vez, Este, atacando o contrato de 4 Copas:

 

Seu parceiro, Oeste, sai com o 6. Quando o morto joga pequena, você faz o Ás. É evidente que jogar espadas agora estabelecerá a Dama do morto, ou seja, não deve produzir vazas para o ataque (o Rei de espadas do parceiro já está firme, não precisamos jogar espadas agora para firmá-lo). Dentre as outras possibilidades, a mais interessante é o fraco do morto, o naipe de ouros, onde você tem uma boa figuração de honras. Assim, você joga o 10 (a mesma carta com a qual você sairia, topo da sequência interna). Qualquer que seja a reação do carteador, o ataque conseguirá fazer 2 espadas e 2 ouros, derrubando o contrato. Se você jogar espadas na vaza 2, o carteador terá uma balda (na Dama de espadas) para um de seus ouros perdedores e cumprirá o contrato.

Às vezes, você interrompe o ataque no naipe da saída para dar uma informação importante ao parceiro:

Seu parceiro saiu com o K contra o contrato de 3 Copas por Sul. Você deve cobrir com o Ás, com o objetivo de bater o K. A única função desta jogada é esclarecer ao parceiro onde estão suas honras — se você deixar ele com a mão sem mais informações, ele fará algumas vazas em espadas e depois terá que acertar um palpite — para qual naipe trocar? O morto não dá nenhuma pista. Se ele trocar para paus, o carteador conseguirá tirar os trunfos e descartar um ouros da mesa no quarto paus de sua mão.

Se você seguir o ataque indicado, seu parceiro não terá dúvida em jogar ouros depois de fazer a segunda vaza de espadas.

Um outro exemplo:

Seu parceiro sai com o K contra o contrato de 4 Copas por Sul. Você deve cobrir com o Ás, para bater seu A. Agora, quando você jogar espadas, seu parceiro não terá problemas em ganhar a vaza e jogar ouros para você cortar.

Vimos apenas alguns exemplos de bom ataque contra contratos em naipe. O tema é extenso!

 

Lição XXX – Estratégias na terceira posição para o ataque em naipe

Depois da saída, a primeira decisão do ataque cabe ao parceiro do saidor, que é o terceiro a jogar nesta vaza. Todas os comentários feitos por ocasião da lição sobre esta posição no ataque em um contrato em Sem-Trunfos (Lição XXII) ainda se aplicam. Você ainda deve jogar forte quando o morto não apresenta honras. Você ainda deve jogar a menor das iguais, ao jogar forte. Você ainda deve tentar guardar suas honras para capturar honras que tenham aparecido no morto.

Em relação a esta última possibilidade, você precisa apenas se precaver contra a chance do carteador ganhar a vaza com uma honra seca. Veja a seguinte situação:

Seu parceiro saiu com o3 (e este não é o naipe de trunfos). Se o morto jogou uma pequena, qual é a carta que você, em Este, deve jogar? Se você jogar o Dez e seu parceiro tiver a Dama, é evidente que você ganhou uma vaza, pois, com o auxílio de seu parceiro, vocês conseguirão impedir que o Rei do morto ganhe qualquer vaza no naipe. Mas se a Dama estiver com o carteador, você estará deixando que ele ganhe a primeira vaza no naipe. Há algum problema nisso? A resposta depende inteiramente da distribuição deste naipe na mão dos demais jogadores. Pela Regra dos Onze, você sabe que seu parceiro tem no máximo 5 cartas no naipe da saída — ou seja, o carteador precisa ter pelo menos duas cartas. Portanto, mesmo que uma destas cartas seja a Dama, você não perde uma vaza jogando o Dez na primeira oportunidade, pois o carteador continua com uma carta pequena do naipe em sua mão, que provavelmente será concedida mais tarde. Vejamos as principais alternativas:

1.

2.

No primeiro caso, ao jogar o Dez, Este deixa o carteador fazer a primeira vaza no naipe, mas depois disso ele fica com uma forquilha sobre o Rei da mesa, e termina fazendo as duas últimas vazas neste naipe. No segundo caso, evidentemente o Dez impede que o Rei do morto se torne uma vencedora, e o ataque fica com as três vazas do naipe. Ou seja, nesta posição, Este sempre deve jogar o Dez (a menor das iguais).

Mas suponha que a posição dos paus seja algo assim:

O parceiro sai com o ♣2, e o morto joga pequena. Pela Regra dos Onze, o carteador deve ter uma seca. A seca pode ser o Rei, mas também pode ser uma carta pequena. Se você estivesse atacando em Sem-Trunfos, sua carta deveria ser o Valete, na esperança de que o Rei estivesse com o parceiro, ou preparando a posição para que o ataque conseguisse fazer as próximas 3 vazas do naipe. Mas contra um contrato em trunfos isso é bem ariscado. Se você jogar o Valete e perder para o Rei seco, o carteador controlará todas as outras vazas neste naipe, cortando-o. Assim, você acaba não conseguindo fazer nenhuma vaza em paus. Por outro lado, se você jogar o Ás na primeira vaza e pegar o pior caso — o caso em que a seca do carteador era pequena, e o Valete teria sido suficiente para fazer a primeira vaza — talvez o prejuízo não seja grande, pois o carteador poderia cortar as próximas vazas deste naipe, de qualquer maneira.

Em uma situação como essa, a decisão de se jogar o Ás ou o Valete depende de outras considerações, mais amplas, incluindo o contrato a ser jogado, o leilão, e o seu plano de ataque para alcançar as vazas necessárias para derrubar o contrato.

O resto do ataque contra um contrato em naipe segue os princípios apresentados em lições anteriores. Você joga no forte ou no fraco do morto conforme sua posição na mesa, tenta estabelecer suas vazas, etc.

SINALIZAÇÃO

Tudo o que já foi dito sobre o tema da sinalização (Lição XXV) continua em vigor.

Contra um contrato em Sem-Trunfos, um sinal encorajador normalmente mostra, além de uma honra no naipe, um certo comprimento, ou seja, a esperança de se estabelecer vazas de comprimento. Contra um contrato em naipe, este tipo de sinal não mostra comprimento (pois comprimento extra não costuma ser muito vantajoso). Além do mais, o sinal encorajador também é frequentemente usado para denotar que o jogador está curto neste naipe, ou seja, para sugerir ao parceiro que ele continue o naipe para produzir um corte.

Vejamos algumas variações sobre o tema.

 

Você está em Este, atacando o contrato de 4 Espadas por Sul. Seu parceiro sai com oA. Esta saída, em geral, indica o Rei do naipe. Como você tem a Dama do naipe, você vê que conseguirá fazer a terceira vaza neste naipe, caso o carteador tenha três cartas também. Assim, você deve encorajar, jogando o 8. Quando seu parceiro continua com o K na segunda vaza, você joga o 5, completando o sinal. Seu parceiro joga a terceira carta do naipe, e você faz a vaza com sua Dama. Agora, basta fazer uma vaza em paus, o que será fácil se você jogar algum outro naipe agora, deixando o carteador mexer no naipe.

No exemplo acima, veja que o carteador possui uma forquilha em paus. Às vezes, você deve desencorajar o naipe da saída, mesmo com uma honra neste naipe, para sugerir ao parceiro que ele troque de naipe, ajudando você a estabelecer suas honras neste segundo naipe. Se você desencorajar, a tendência do seu parceiro é trocar para o forte (e curto) do morto, no caso, para o naipe de paus. Mas note que se você tivesse feito isso na mão sendo analisada, você teria entregue o contrato, pois o carteador poderia descartar um ouros de sua mão no naipe de copas (ele não faria a finesse de paus), depois de tirar os trunfos. Ou seja, esta estratégia de desencorajar mesmo com uma honra no naipe da saída não deve ser usada indiscriminadamente — você deve levar em consideração se é realmente necessário trocar para este naipe agora, na vaza 2, ou se isso pode esperar (o que é o caso em análise).

Outra variação:

Novamente seu parceiro sai com o A contra o contrato de 4 Espadas. Seus ouros são exatamente os mesmos, mas note que o morto agora tem apenas duas cartas neste naipe. Assim, sua Dama será cortada na terceira rodada do naipe. Logo, você não tem nenhum desejo ardente de que este naipe seja continuado. Olhando para o naipe de paus, você tem, sim, um desejo ardente de que seu parceiro jogue paus, assim que possível, o máximo de vezes possível, e por isso você desencoraja a saída, servindo o 5. Seu parceiro provavelmente jogará paus mesmo, começando a segunda vaza com o 9. O carteador deve jogar pequena, fazendo uma dupla finesse. Você faz a vaza com o J, e joga o 8 para o Ás do parceiro. Seu parceiro continua paus, assegurando a derrubada do contrato.

Veja um outro exemplo agora:

Seu parceiro (Oeste) sai com o A contra 4 Espadas, por Sul. Quando o morto joga pequena, você deve encorajar, jogando o 3. Talvez o 3 não pareça muito grande aos olhos de seu parceiro. Mas ele se anima um pouco ao notar que o 2 ainda não foi jogado. Não tendo nada muito melhor para fazer, ele continua com o K. Quando você serve o 2, ele sabe o que está acontecendo: como você encorajou o naipe, isso só pode significar que você corta a próxima vaza. O carteador provavelmente vai servir o J, desesperado para atrapalhar a decisão de Oeste, mas não faz diferença — se seu parceiro acredita em você (como um bom jogador sempre deve fazer), ele joga a terceira volta no naipe. Você corta, e seu Ás de ouros é suficiente para derrubar o contrato.

Você também deve encorajar em situações como essas:

 

Nos dois casos você está em Este. Quando seu parceiro sai com uma honra (indicando a honra imediatamente inferior), você deve esclarecer que a terceira honra da sequência está em sua mão, permitindo assim que seu parceiro, ao fazer uma vaza subsequente, continue o naipe sem medo.

RESUMO

Os princípios do ataque em ST também se aplicam no ataque em naipe. Preste atenção especial na sinalização — seu parceiro precisa de sua ajuda na hora de atacar!

Lição XXIX – Saídas contra um contrato em naipe

Chegou a hora de estudar aspectos do ataque contra um contrato em naipe, ou seja, com algum trunfo. É claro que a maioria dos princípios já apresentados, do ataque em Sem-Trunfos, também se aplica a contratos em naipe. Porém, algumas adaptações são necessárias, e novos princípios serão apresentados.

Vamos começar como fizemos com o ataque em Sem-Trunfos, examinando a estratégia a ser adotada na primeira carta, a saída. Em geral, as mesmas convenções estão em vigor. A saída da Dama continua indicando ao parceiro que o saidor tem o Valete, a saída de um Ás continua indicando que ele tem o Rei, etc. Quando saímos com uma carta pequena de um naipe longo, continuamos jogando a quarta maior carta (de cima para baixo), e isso significa que a Regra dos Onze continua válida. Porém, a presença de um naipe de trunfo provoca algumas alterações na ordem de preferência de saídas.

BOAS SAÍDAS CONTRA UM CONTRATO EM NAIPE

Uma saída excelente contra qualquer contrato em naipe é a saída em um naipe encabeçado por AK. Além da saída provavelmente ganhar a primeira vaza, ela permite que o saidor estude o morto antes de decidir qual o próximo passo do ataque. Esta é a primeira diferença entre as saídas em ST e em naipe — em ST, é comum o jogador sair de pequena com um naipe longo encabeçado por AK, visando estabelecer as demais cartas baixas do naipe. Mas contra um contrato em trunfos esta estratégia é perdedora, já que o carteador poderá impedir que você faça essas vazas, cortando-as. Ao contrário do ataque em ST, o ataque em naipe raramente envolve o estabelecimento de cartas pequenas. O objetivo dos atacantes é estabelecer vazas rápidas, por meio de honras, antes que o carteador possa cortar estas vazas.

A segunda melhor saída contra um contrato em naipe é uma seca (ou, se você não tiver uma seca, um doubleton, principalmente se seu parceiro marcou o naipe). Esta saída tem muitas vantagens — ela ajuda seu parceiro a desenvolver vazas em seu próprio naipe, e abre caminho para algum corte em sua mão, neutralizando honras secundárias do carteador.

A terceira melhor saída é uma velha conhecida: a saída com uma sequência, KQ, QJ, ou JT. Aqui há outra diferença entre ST e o contrato em naipe; em ST, quanto mais longo o naipe, melhor para o ataque. No contrato em naipe, se o naipe da saída é longo demais, as chances de estabelecer vazas neste naipe diminuem (pois o adversário tem poucas cartas no naipe e cortará suas vazas). Saídas em sequências com 3 ou 4 cartas são o ideal.

Uma outra diferença entre ST e naipe é que, em ST, quando nossa sequência é de apenas duas cartas (KQ32, ou QJ32), tendemos a sair de pequena. No contrato em naipe, é comum ser melhor sair com a honra indicada (a maior da sequência), priorizando vazas rápidas em detrimento das vazas mais lentas no naipe. É em razão desta prioridade que um naipe curto (por exemplo KQ2) é uma boa saída contra um contrato em naipe, e uma saída ruim contra um contrato em ST.

Ainda há diversas outras saídas possíveis. Sempre que seu parceiro marcou algum naipe no leilão, sair neste naipe deve ser sempre uma opção atraente. Se sua dúvida é qual carta sair, siga as convenções apresentadas em ST: com duas cartas, saia na maior; com três ou mais cartas sem honras em sequência, saia na quarta carta (ou na menor, no caso de você ter três cartas). A única exceção é se você apoiou o parceiro durante o leilão — neste caso, como ele já sabe que você não tem duas cartas ou menos, você pode sair na sua maior carta com três cartas pequenas. A vantagem disso é indicar ao parceiro que você não possui uma honra no naipe (com três cartas encabeçadas por uma honra, você deve sair de pequena), o que pode facilitar sua decisão na primeira vaza.

Finalmente, você pode decidir sair trunfos. Esta saída é indicada se você acha que o morto apresentará algum poder de corte, ou se você acha que o carteador pretende cortar cruzado, ou ainda se sua dupla possui a maior parte das honras.

Sair é uma das coisas mais complicadas do bridge — livros inteiros já foram escritos sobre o assunto — e por isso meu objetivo aqui não é esgotar o tema, e sim apenas apresentar algumas convenções e dicas para ajudar o principiante.

 

Lição XXVIII – Estratégias durante o ataque em ST

A maior dificuldade do ataque é a identificação, na mesa, das diferentes situações que podem ser enfrentadas pelos atacantes. Cada mão requer um tratamento específico. Um princípio aplicável em um certo caso pode ser inútil em outro.

No meio do ataque, os lemas mais conhecidos para os atacantes são “jogar no forte do morto” quando o morto está à sua esquerda, e “jogar no fraco do morto” quando o morto está à sua direita. São princípios bastantes razoáveis, baseados no fato, já demonstrado nas lições anteriores, de que é vantajoso jogar depois das honras do adversário.

Vejamos alguns exemplos.

2. 

Você está em Oeste, e o morto é Norte. Se o parceiro jogar este naipe, ou seja, se ele jogar no forte do morto apesar de o morto estar à sua direita, ele estará entregando uma vaza. Para que o ataque faça o máximo de vazas em situações como essas, é necessário que seu parceiro jogue depois do morto. Isto significa que ou você, ou o carteador precisam ser os jogadores que dão início à vaza. Se a mão estiver com você, não vale a pena torcer para que o carteador jogue o naipe. Se você esperar, o seu parceiro, no final da mão, pode ser obrigado a jogar este naipe, e assim a entregar vazas ao adversário. Para tirar pleno proveito de naipes como estes, você, em Oeste, precisa jogar o naipe o mais rápido possível, atacando o forte do morto.

Apesar da regra geral ser bastante razoável, não devemos segui-la cegamente. Se jogar o forte do morto pode colocar em risco uma vaza, é melhor buscar outra opção. Por exemplo:

É claro que, se você jogar este naipe, você estará jogando o forte do morto. Mas isto não pode produzir nenhuma vaza no naipe além do Ás e da Dama, pois o morto possui as demais cartas altas. Se seu parceiro tem o Ás sem a Dama, ele sempre fará esta vaza. Mas se ele tiver a Dama sem o Ás, isto significa que o carteador é quem tem o Ás, e neste caso mexer no naipe simplesmente entrega para o carteador a localização da Dama, que ele teria que buscar por seus próprios meios se você jogasse outro naipe. Ou seja, mexer neste naipe implica no risco real de esclarecer uma posição para o carteador; deixar o naipe em paz implica na possibilidade real de o carteador, possuindo o Ás sem a Dama, errar o lado da finesse, dando assim uma vaza para o ataque.

Seria ainda pior jogar o naipe se a posição fosse a seguinte:

Se Oeste joga este naipe, ele só pode perder. Sua única chance de fazer a Dama é ver o carteador errar a jogada no naipe, mas ele nunca errará esta jogada se você mexer no naipe para ajudá-lo.

Moral da estória: quando o morto está à sua esquerda, você só deve jogar o forte do morto se você não coloca em risco vazas potenciais. A situação ideal para se jogar o forte do morto é quando você não tem honras no naipe, o morto tem poucas honras no naipe, e este é um dos naipes curtos do morto (ou seja, potencialmente é um dos naipes longos de sua dupla).

A mesma análise se aplica ao caso complementar, do jogador com o morto à sua direita, que joga no fraco do morto. Vejamos exemplos simples:

Suponha que você esteja em Este, com o morto (Norte) à sua direita. Atacar o naipe de ouros parece razoável, torcendo para que seu parceiro tenha honras no naipe, e promovendo-as antes que o carteador possa se livrar de suas cartas perdedoras da mão. Nos três casos, você deve mexer no naipe jogando sua maior carta.

APLICANDO ESTES PRINCÍPIOS A UMA MÃO INTEIRA

Suponha que você está em Oeste e começa o ataque contra o contrato de 1ST, por Sul, com o A. Seu parceiro joga o 2, desencorajando, o que já esclarece que ele não possui a Dama deste naipe. Como a Dama está com o carteador, você precisa tentar dar a mão para seu parceiro, para que ele possa jogar espadas de lá para cá (atacando o fraco do morto). A sua única dúvida é que naipe jogar agora. Não há muitas pistas, mas vamos supor que você esteja com sorte e, inspirado por seu 109, ataca agora com o 10 (note que você joga a maior da sequência). O morto provavelmente jogará o J, e seu parceiro te dá uma boa notícia quando faz a vaza com a Dama. Agora, seu parceiro joga o 5 (a maior carta com duas remanescentes no naipe), e se o carteador jogar o 9, você faz a vaza com o Valete. Se o carteador preferir jogar a Q, você faz a vaza com o Rei. Nos dois casos, você termina com 4 vazas no naipe de espadas. Quando você termina de jogar as espadas, você joga o 9, e, qualquer que seja a reação do carteador, seu parceiro fará mais 2 vazas neste naipe. Assim, vocês fizeram 4 espadas e 3 copas, derrubando o contrato.

Numa situação como essa, em que você sabe que sua dupla precisa mexer nas espadas pelo outro lado (isto é, com o parceiro começando a vaza), você pode ter que acertar um palpite — na mão em discussão, você poderia ter decidido jogar paus ao invés de copas (temendo que o carteador tivesse algo como A10x, ou seja, para não esclarecer a posição da Dama de seu parceiro). Se você tivesse feito isso, o carteador teria chegado a 7 vazas antes do ataque. Acontece. O importante é saber que o ataque não deve continuar jogando espadas.

TROCANDO DE NAIPE DURANTE O ATAQUE

Até agora, os exemplos mostram situações em que é uma boa ideia continuar jogando o naipe da saída pelo parceiro, ao invés de tentar atacar um outro naipe. Em geral, isto é uma estratégia vencedora, mas nem sempre isso é verdade. A decisão de se trocar o naipe do ataque é influenciada, em parte, pelo aspecto posicional (jogar o fraco ou o forte do morto), mas isto está longe de ser o único fator de decisão.

Vejamos um exemplo:

 

Você é Este, atacando o contrato de 3ST por Sul. Seu parceiro sai com o 3, e você faz a vaza com o Ás. Seu primeiro impulso é continuar o naipe, mas será que este é mesmo o melhor ataque? Vamos pensar um pouco. O 3 é a menor carta de espadas do baralho (pois você tem o 2). Como seu parceiro sai na sua quarta carta de cima para baixo, isso significa que ele só tem 4 cartas no naipe. Ou seja, o carteador também tem 4 cartas neste naipe! Das 4 cartas na mão do carteador, certamente duas delas são honras — caso contrário, seu parceiro teria uma sequência de honras na mão e provavelmente teria começado com uma honra. Isto significa que você não poderá fazer todas as vazas em espadas. Para derrubar o contrato, você precisa de (pelo menos) 5 vazas, ou seja, você vai precisar de vazas em outros naipes além de espadas.

Olhando para o morto, cheio de honras em ouros em paus, e para sua mão, com uma bela sequência de honras em copas, parece claro que sua melhor chance de fazer vazas em outros naipes é em copas. Assim, você joga a Q na segunda vaza, atacando o fraco do morto. Na prática, o carteador não pode fazer nada, e o ataque termina com 4 vazas de copas e 1 vaza de espadas, derrubando o contrato. Se você tivesse continuado espadas, o carteador teria feito 10 vazas antes que você recuperasse a oportunidade de atacar copas.

A mão é um exemplo didático — você não deve sempre trocar de naipe só porque possui uma boa sequência de honras em sua mão. Você precisa passar por todas as etapas do raciocínio, que estabeleceu, antes da decisão de trocar de naipe, os seguintes fatos:

a) O parceiro só tinha 4 cartas no naipe da saída;

b) O carteador tinha 4 cartas no naipe da saída;

c) As cartas do carteador incluíam honras;

d) Continuar atacando este naipe não seria suficiente para derrubar o contrato;

e) Seria necessário encontrar outras honras na mão do parceiro para derrubar o contrato;

f) Se estas honras estivessem em copas, seria vantajoso, por razões posicionais (a fraqueza do morto neste naipe), atacar o naipe começando por sua mão e não pela mão do parceiro;

g) A única oportunidade de atacar copas pelo seu lado era na vaza 2.

Quando você sabe que não adianta firmar seu próprio naipe, por falta de entradas em sua mão, você precisa arriscar e buscar alguma coisa boa na mão de seu parceiro. Veja a próxima mão:

Em Oeste, você sai com o K contra o contrato de 3ST por Sul. O carteador fia, com o objetivo de esgotar as espadas da mão de Este. Você continua atacando o naipe, e o carteador fia mais uma vez.

O carteador acabou de cometer um erro grave. Ele devia raciocinar da seguinte forma: Se o saidor tem 5 espadas, eu não preciso fiar a segunda vaza do naipe, pois Este já não tem mais espadas (depois da primeira fiada); basta ganhar esta vaza e fazer a finesse de ouros, pois, se o Rei de ouros estiver mal colocado, Este já não tem espadas para me derrubar. Se o saidor tem 4 espadas, eu perderei, caso erre a finesse de ouros, 3 espadas e 1 ouros, e terminarei cumprindo o contrato. Nos dois casos, não devo fiar.

Mas isso é problema do carteador. Você, em Oeste, não tem nada com isso, e precisa jogar alguma coisa que dê início a terceira vaza. Deve estar muito claro que não adianta continuar jogando espadas, pois você não tem nenhuma entrada. Assim, você precisa trocar de naipe. Não adianta jogar no forte do morto (ouros), pois este naipe claramente não tem futuro para você. E, no que se refere a jogar o fraco do morto (copas) de lá para cá, tal manobra também não é necessária, pois sua figuração em copas não tira proveito da posição das demais honras; você pode começar este naipe por sua mão sem prejuízo para o ataque.

Isso não significa que é claro que você deve trocar para copas — na verdade, não é. Mas é claro que não faz diferença de que lado o ataque joga copas (se o melhor ataque for jogar copas!). Assim, a decisão entre copas e paus é indiferente à questão da posição das honras, e você precisa apenas acertar seu palpite. (Há boas razões pelas quais você deve preferir palpitar copas… mas isto é para uma lição mais avançada). Se você jogar copas, você começa com o J, claro, a maior de uma sequência, e isso acaba com o carteador. Eventualmente, ele perderá a finesse de ouros e o ataque já terá vazas suficientes para derrubar o contrato.

Depois de criticar a linha do carteador, está na hora da auto-crítica, em um nível mais avançado… uma dupla experiente aproveitaria a primeira vaza (a carta de Este) para indicar o número de espadas na mão de Este. Com esta informação, Oeste poderia ter trocado de naipe já na segunda vaza do ataque, sem precisar contar com o erro do carteador.

Uma outra ocasião ideal para se trocar de naipe é quando tal ação arranca uma entrada valiosa do morto, atrapalhando os planos do carteador. Esta situação é provavelmente a mais importante das que estamos estudando aqui. Vejamos o exemplo:

Em Este, você está atacando o contrato de 3ST por Sul. Seu parceiro sai com a Q, e o carteador ganha a vaza com o Rei (você serve o 4, indicando que não possui honras no naipe). Agora, o carteador joga paus, fazendo uma finesse e perdendo para a sua Dama. Como você analisa a posição? Se você jogar espadas, é bem provável que o carteador consiga fiar uma vez, esgotando suas cartas no naipe. Depois, ele jogará paus, arrancando sua última pega o naipe, e você não conseguirá mais dar a mão a seu parceiro. Qualquer que seja o próximo passo, o carteador conseguirá entrar na mesa com o Ás de copas e correr o resto dos paus.

O Ás de copas é uma carta vital nesta mão. Se você conseguir forçar o carteador a jogá-lo imediatamente, ele fará muita falta mais tarde. Assim, você troca para copas, jogando o J na terceira vaza. Independente de se o carteador jogar a Q ou não, ou de se ele tentará fiar o Ás de copas na mesa, eventualmente o Ás de copas será arrancado da mesa, pois seu parceiro pode sempre cobrir a Dama e continuar o naipe. Mais tarde, quando o carteador tentar firmar os paus, você fiará uma vez, para esgotar os paus de sua mão. Ele não poderá mais tirar proveito das vazas de paus firmes na mesa e terá que perder suas cartas baixas da mão.

Sempre vale a pena pensar na ideia de arrancar uma entrada vital do morto. Às vezes, este princípio é levado a formas extremas, como em jogadas mais avançadas que veremos mais tarde.

RESUMO

 

Em geral, quando o morto está à sua esquerda, você deve tentar atacar o forte do morto (de preferência, um naipe curto do morto). Porém, você não deve fazer isso se for correr o risco de entregar uma vaza ou esclarecer uma posição ambígua. Se o morto está à sua direita, jogue no fraco do morto. As duas estratégias são equivalentes e pretendem tirar proveito da posição das honras de seu parceiro (sobre as honras do adversário).

Para decidir se você vai continuar jogando o naipe do parceiro ou trocar de naipe, faça as seguintes perguntas:

  • O naipe que você quer jogar oferece uma chance melhor de derrubar o contrato?
  • Onde estarão as entradas do ataque, depois que um dos dos naipes estiver firmado? Não adianta firmar um naipe em uma mão sem entradas.
  • Há uma entrada importante no morto que precisa ser arrancada antes de firmarmos nosso próprio naipe?

Lição XXVII – Ataque em ST na segunda posição (continuação)

 

Na lição anterior, vimos que o atacante na segunda posição, na grande maioria dos casos, joga pequena quando o carteador joga uma carta pequena em direção ao morto. Quando o carteador joga uma honra de sua mão e o morto possui uma outra honra, o problema do atacante é mais difícil. A maior parte dos jogadores já ouviu o chavão “honra sobre honra”, que significa que, quando uma carta alta é jogada em direção a uma mão que possui outra carta alta, o jogador na posição do “sanduíche” (o segundo a jogar) deve jogar uma honra intermediária, forçando a terceira mão a também jogar sua honra. Isto, evidentemente, contradiz a regra geral de “o segundo joga fraco”. E a verdade é que jogar “honra sobre honra”, frequentemente, não é a melhor jogada.

Veja a seguinte posição, que é o arquétipo vencedor do preceito “honra sobre honra”:

Quando o carteador (Sul) joga a Dama, sua decisão é muito fácil. É claro que você deve jogar o Rei, que lhe assegura duas vazas no naipe. Porém, como já vimos em lições de carteio, um carteador que jogasse este naipe começando com a Dama, provavelmente, é um principiante que ainda não aprendeu a maneira certa de manejar este naipe.

Imagine agora que a situação é a seguinte:

O carteador jogou a Dama. O que você deve jogar? Aparentemente, cobrir a Dama com o Rei não vai adiantar muito, pois o Ás fará a vaza. Por outro lado, ficar com o Rei em sua mão também não vai adiantar muito, pois, se o carteador tiver o Valete e o Dez, ele continuará fazendo sua finesse vitoriosa, e seu Rei será tragado. Sua melhor chance, portanto, é jogar “honra sobre honra”, obrigando o carteador a jogar o Ás, e torcendo para que seu parceiro tenha o Valete ou o Dez, que serão promovidos a uma vaza.

Imagine que a situação completa fosse essa:

Se Oeste jogar pequena quando o carteador jogar a Dama, e continuar jogando pequena quando o carteador jogar o Valete, sua dupla não fará nenhuma vaza neste naipe. Mas, se Oeste cobrir a Dama e o Ás fizer a vaza, o Valete ganha a segunda vaza no naipe, mas o Dez so parceiro ganha a terceira vaza.

Uma carta importante neste exemplo, que não parece ter muito valor à primeira vista, é o 9. Se esta carta não estivesse em sua mão, você deveria pensar duas vezes antes de cobrir a Dama, principalmente se estiver jogando contra um bom carteador. Um carteador competente não jogaria a Dama sem alguma honra menor protegendo-a. Mas se o carteador tem o Valete e o Nove, ele pode tentar uma finesse secundária neste naipe:

O carteador joga a Dama, como no caso anterior. Se você, em Oeste, cobrir com o Rei, o Ás fará a vaza e o carteador depois jogará uma pequena do morto, provavelmente fazendo uma segunda finesse no naipe, capturando o Dez de seu parceiro. Ou seja, se você tem o Rei e o Dez ou o Nove, você pode cobrir sem medo; mas, se estas cartas não estão em sua mão, a situação não é tão clara. O que não quer dizer que você não deve cobrir o Valete se ele for jogado na segunda vaza no naipe, pois sua única chance é torcer para que o parceiro tenha o Dez.

Quando se trata de cobrir outras honras que não a Dama, é necessário, mais uma vez, uma dose de bom senso. Em geral é bem jogado cobrir o Valete com a Dama quando o morto tem o Ás e o Rei, e não cobrir quando o morto possui apenas uma das duas honras maiores. Veja o seguinte exemplo:

Se o carteador jogar o Valete e você cobrir com a Dama, o carteador faz a vaza com o Ás, e o Dez da mão do carteador ficará bem posicionado para fazer uma segunda vaza no naipe. E se você jogar pequena, o parceiro fará a vaza com o Rei, e você pode cobrir a próxima honra que o carteador jogar de sua mão, firmando o Nove de seu parceiro.

Outro exemplo:

Aqui, se você cobrir o Valete com a Dama, sua Dama foi “achada” e capturada. Se você não cobrir, o carteador precisa acertar um palpite e decidir para que lado fazer sua finesse. Ou seja, numa situação como essa, você não deve cobrir, deixando o problema para o carteador. Na verdade, quando o carteador jogou o Valete, a intenção dele era induzi-lo a cobrir com sua Dama!

Novamente, em geral (estas regras estão repletas de exceções), você deve cobrir um Valete com sua Dama se você observar que, ao jogar pequena, você estará estabelecendo uma forquilha no morto contra sua Dama. A situação mais simples desta natureza é a seguinte:

Em Oeste, você provavelmente deve cobrir com sua Dama, pois, se você não fizer isso, o carteador certamente jogará pequena da mesa e, mesmo se seu parceiro fizer a vaza com o Rei, sua Dama estará condenada pela forquilha de Ás-Dez que restou na mesa. Supondo que o parceiro tem o Rei, sua única chance é jogar para que ele também tenha o Nove. (Observe que se o parceiro não tem o Rei, o carteador jogou o Valete exatamente para induzi-lo a jogar a Dama. Não há solução segura para este problema!).

Para que a estória tenha um final feliz, a mão precisa ser algo como:

Ao cobrir o Valete com sua Dama, você arranca o Ás da mesa e estabelece, na mão do parceiro, uma forquilha (Rei-Nove) com a qual sua dupla pode neutralizar o Dez da mesa.

Este princípio pode ser estendido até cartas menores. Veja os seguintes diagramas.

Nos dois casos, quando o carteador joga o Dez da mão, você, em Oeste, precisa observar que, ao jogar pequena, deixará uma forquilha na mesa pronta para anular sua honra. Por isso, você deve cobrir o Dez do carteador, torcendo para que as demais honras estejam com o parceiro. Uma outra variação:

Novamente, sua Dama deve cobrir o Valete do carteador, se esta for a carta jogada de sua mão. O princípio geral continua válido: não deixe o carteador estabelecer forquilhas na mesa contra suas honras.

É claro que cobrir nunca é boa jogada se você está abrindo mão de uma vaza que seria sua de qualquer modo. Por exemplo:

Em uma situação como essa, quando o carteador joga a Dama, basta jogar pequena que seu Rei acabará fazendo uma vaza, pois o morto só tolera uma única finesse antes de jogar o Ás do naipe. Poupando seu Rei na primeira vaza, você garante que ele fará a terceira vaza do naipe.

JOGANDO DEPOIS DO MORTO

Resta examinar agora a situação do sujeito que está na segunda posição depois do morto, ou seja, ele é o segundo a jogar e só está vendo as cartas à sua direita. Os principíos gerais são os mesmos. Curiosamente, o fato de você não ver as cartas que ainda não jogaram na vaza às vezes ajuda mais do que atrapalha. Se o morto joga pequena, você deve, na maioria dos casos (principalmente quando se trata de um naipe que está sendo desenvolvido pelo carteador como fonte de vazas), jogar pequena também — o segundo joga fraco.

Quando o morto joga uma honra, a regra geral é “honra sobre honra” quando o morto só possui uma honra no naipe. Por exemplo, se o morto tem J82, e você tem K75, não tenha medo de jogar seu Rei quando o morto puxa o Valete. Todavia, se o morto possui duas honras em sequência e joga uma delas, você quase nunca deve cobrir.

Veja os seguintes casos:

Se o morto joga uma de suas honras, nos dois casos, você deve jogar pequena. Se o parceiro conseguir ganhar a vaza, ótimo. Você poderá cobrir a segunda honra do morto mais tarde. Se o parceiro não ganhar a vaza, você não perdeu nada, pois o carteador simplesmente executou uma finesse.

A única exceção é quando você só tem duas cartas no naipe:

Em uma situação como essa, quando a Dama é jogada, cobrir é a jogada indicada. Se o parceiro tem o Ás, tanto faz. Se o carteador tem o Ás, está fazendo uma finesse, e se ele ganhar esta vaza, depois ele conseguirá capturar seu Rei com uma carta pequena. Jogando o Rei imediatamente, você promove as cartas de seu parceiro quando ele tem algo como 1092.

RESUMO

As duas regras básicas são:

O segundo joga fraco e

Honra sobre honra.

Porém, não se atenha apenas a regras para simplificar a sua vida, pois Bridge não é um jogo simples. 

Lição XXVI – Ataque em ST na segunda posição

Em nosso estudo sobre ataque, estivemos seguindo uma sequência lógica, começando com a saída, e passando para jogadas posteriores. Apresentamos as combinações mais consagradas de saída e de sinalização. Em todos os casos estudados, quem começava a vaza era um dos dois atacantes. Basta pensar um pouco para ver que situações onde o carteador começa a vaza são bem mais frequentes — afinal de contas, quem ganha o leilão certamente tende a fazer mais vazas do que o outro lado! Ou seja, embora tenhamos estudado o ataque na primeira posição (saída) e na terceira posição (continuação de uma vaza começada pelo parceiro), é claro que precisamos dedicar algum estudo para o ataque na segunda e na quarta posições.

Em geral, o ataque na quarta posição não é difícil. Como todos os demais jogadores já participaram da vaza, a decisão que se apresenta ao jogador na quarta posição é estratégica — ele fará (ou não) a vaza, prestando atenção nas consequências futuras (em outras vazas) de sua decisão.

O problema do atacante na segunda posição é bem mais complicado, pois dois jogadores ainda participarão da vaza. Um deles é o seu parceiro, e o outro é o morto, ou o carteador. Assim, podemos classificar a situação em dois tipos básicos: quando você joga antes do morto, e quando você joga antes do carteador.

SEGUNDA POSIÇÃO ANTES DO MORTO

Este é o caso mais fácil, pois você consegue ver as cartas adversárias que ainda não foram jogadas nesta vaza. Em mais de 90% dos casos as cartas do morto esclarecem qual a jogada adequada para o atacante. O grande lema do atacante nesta posição é, O Segundo Joga Fraco (e Rápido)É claro que, como tudo em bridge, este lema não é absoluto — talvez uma boa inclusão aí seja, “a não ser que o jogador veja uma boa razão para não fazê-lo”.

A principal razão para que o segundo jogue fraco (isto é, uma carta pequena) é preservar a capacidade da dupla de atacantes de fazer vazas. Veja um diagrama que esclarece o ponto:

O carteador (Sul) joga o 6. Qual a carta que você (Oeste) deve jogar? Não faz sentido jogar o Valete, pois o carteador certamente jogará o Rei da mesa, dado que há muitas cartas maiores que o 7 na mão do parceiro, o que é bastante plausível. (Note que, se por acaso o carteador jogar o 7 e fizer a vaza, isso significa que ele tinha, na mão, Q10986 — pelo menos — ou seja, não havia nada que você pudesse fazer para evitar que o 7 ganhasse a vaza). Suas opções são, então, o Ás ou o Cinco. Se você jogar o Ás, o morto servirá uma carta pequena, e as duas honras do carteador (o Rei e a Dama) controlarão as demais vazas do naipe. Como as copas estão divididas 4-3-3-3, o carteador terminará fazendo, inclusive, a última vaza do naipe com a carta firme do morto.

Principalmente em Sem-Trunfos, onde um Ás muito raramente deixa de fazer vaza, qual a pressa de Oeste? Bem melhor é jogar pequena. Quando o morto joga o Rei, Oeste fica com AJ, que agora servem para fazer 2 vazas no naipe, mesmo que o carteador tenha todas as honras faltantes.

Imagine agora que a situação é a seguinte:

Suponha que Sul jogou o 5. Você (Oeste) só está vendo as suas próprias cartas e as cartas do morto, e se você pudesse ver todas as cartas e acompanhar o diagrama “em tempo real”, você saberia que, se jogasse o 2, o carteador pode ganhar a vaza com o 8. Acontece que o carteador não está vendo todas as cartas. A jogada mais natural (e a que dá ao carteador a melhor chance de fazer o máximo de vazas no naipe — veremos noções de probabilidades em uma lição futura) é jogar uma honra da mesa. Quando o Valete fizer a vaza, o carteador continuará jogando uma copas da mesa para sua Dama, que você cobrirá com o Ás. Finalmente, na terceira vaza do naipe, o carteador (se estiver jogando segundo as probabilidades) deve jogar copas para a última honra da mesa, e você terminará fazendo o seu 10.

Note que, como as cartas estão, sua única chance de fazer este 10 é jogando pequena copas nas vazas em que você é o segundo a jogar. É por isso que a jogada certa, nesta posição e nas milhares de posições semelhantes, é jogar uma carta pequena: o segundo joga fraco.

Observe também que, se você, talvez por ansiedade, jogar o Ás na primeira vaza, o carteador terminará com todas as outras vazas no naipe (ou seja, você não fará o 10). Como já vimos em lições anteriores, o papel de honras como o Ás não se limita a ganhar vazas — elas também devem ser usadas para capturar as honras adversárias, promovendo assim as honras menores de cada naipe.

A pior jogada possível no diagrama acima é servir o 10. Muitos jogadores fracos fazem jogadas assim e se justificam dizendo que sua intenção era “forçar o carteador a jogar o J”. Mas jogar o Valete de copas já era a intenção do carteador, antes de você servir qualquer carta; e, se o carteador for um mau jogador e quiser jogar o 8 da mesa, não há nada que você possa fazer!

Vejamos outros exemplos:

Quando o carteador joga o 2, você deve jogar o 7, mesmo sabendo que o 10 pode tranquilamente ganhar a vaza. Sua única esperança é que o carteador tenha outras chances em outros naipes e prefira não apostar todas as suas fichas no naipe de paus. Note que jogar uma honra em uma posição como essa não adianta nada — pelo contrário, ajuda o carteador ao dar uma indicação de que você deve ter as duas honras bem posicionadas (caso contrário, estaria seguindo a regra de jogar fraco na segunda posição). Ou seja, de um ponto de vista absoluto, não há nada que você possa fazer, mas na realidade, jogar uma honra aqui dá ao carteador informação — que pode ser valiosa quando ele escolher sua linha de carteio.

Outro exemplo:

Aqui temos um caso em que pode ser melhor jogar uma honra do que jogar pequena. Mas jogar a honra também pode ser errado! Se o carteador tiver K1094 (por exemplo), você deve jogar uma honra, protegendo sua vaza segura neste naipe; ao não jogar a honra, você corre o risco do carteador jogar o 8 e você terminar sem nenhuma vaza. Por outro lado, se você jogar uma honra, o naipe pode estar distribuído assim:

Neste caso, o ataque tem duas vazas naturais no naipe… a não ser que você jogue uma honra!

Como decidir? Não há regra infalível, mas em geral o leilão e a estratégia adotada pelo carteador dão informações suficientes para que o atacante escolha o melhor caminho. Sem qualquer informação mais clara, meu conselho é, jogue fraco. Note que jogar pequena neste exemplo só é ruim se o parceiro não tiver nenhuma das honras importantes (Rei, Dez, Nove), e que mesmo assim o carteador precisa adotar uma linha afortunada para lhe roubar a vaza.

É claro que a diretriz de “quanto mais informação, mais fácil decidir” também serve para o carteador… se você demonstrou, no leilão, que deve ter as honras de ouros, calçar a vaza, isto é, colocar uma honra mesmo sendo o segundo a jogar, se torna mais atraente.

E quanto o morto não possui honras capazes de derrotar suas cartas mais altas? Neste caso, a decisão de jogar fraco (deixando, ou torcendo, para que o parceiro ganhe a vaza) depende, basicamente, do bom senso. Uma pergunta importante é, “eu quero ganhar a vaza, ou prefiro que o parceiro faça esta vaza para jogar algum naipe de lá para cá?” O importante é entender que, mesmo em situações nas quais parece razoável entrar com uma honra, o segundo joga fraco continua sendo uma regra válida e continua funcionando em muitos casos.

Por exemplo:

Você é Oeste. Se o carteador jogar o6, e você jogar a Dama, você fará a vaza. Mas agora seu parceiro ficou exposto a uma finesse, e o carteador pode terminar com 4 vazas no naipe. Se você jogar pequena nesta vaza, você deixa seu parceiro ganhar o Rei e continua com a Dama para uma vaza posterior. Quando essa estratégia se dá mal? Quando o carteador tem AKJ no naipe. Mas neste caso — a não ser que o leilão tenha dado alguma indicação, ou que você esteja inadvertidamente mostrando suas cartas… — o carteador, tipicamente, não jogaria o naipe assim, preferindo entrar no morto (caso tenha entradas!) para fazer a finesse no naipe, tentando conseguir 5 vazas quando é seu parceiro quem tem a Dama.

Moral da estória: Quando o carteador joga pequena da mão, em geral o segundo joga fraco (e rápido). Veremos como este “e rápido” é importante em uma lição futura. Na próxima lição, veremos o caso em que o carteador não jogou pequena da mão, tendo jogado uma honra. As considerações são um pouco diferentes naquele caso.

Lição XXV – Sinalização

Uma das coisas mais difíceis do ataque é manejar as cartas pequenas, inclusive ao descartar. Em bom português, descartar significa livrar-se de uma carta indesejada. Por esta razão, quando não podemos servir o naipe da vaza e jogamos alguma carta (que não tem chance de fazer a vaza), denominamos esta jogada de “descarte” (ou “balda”).

Este nome pode induzir o aluno a achar que os descartes não são importantes. Afinal de contas, um descarte nunca pode ganhar a vaza. Mas uma visão tão simplista ignora que o parceiro está olhando com atenção para nossos descartes, e também ignora que, ao descartar, o atacante precisa se preparar, da melhor forma possível, para as vazas subsequentes. Na realidade, todas as cartas são importantes, inclusive os descartes. Mesmo quando você não tem nenhuma honra na mão, é importante descartar corretamente, quanto mais não seja para que seu parceiro (que tem as honras do ataque) saiba o que fazer.

Assim como as saídas, as cartas servidas ou descartadas contam uma estória. Pode ser uma estória triste, mas a estória precisa ser contada. Ou seja, bons atacantes sinalizam ao servir e ao descartar. Algumas cartas são sinais vermelhos, dizendo “Pare!” para o parceiro; outras são sinais verdes, encorajando-o a acelerar. Ou seja, existem cartas encorajadoras e cartas desencorajadoras.

A teoria da sinalização ainda não está consolidada. Em outras palavras, há discussões teóricas relevantes entre os melhores jogadores sobre a melhor forma de se sinalizar. A forma mais consagrada de se sinalizar utiliza o tamanho da carta jogada como o sinal — cartas altas significam alguma coisa, e cartas baixas significam outra coisa, ou seja, um sinal binário. Embora haja espaço para ambiguidade (imagine que sua maior carta é um 3 ou um 4, ou que sua menor carta é um 8 ou um 9), este princípio, na grande maioria das mãos, é suficientemente claro para auxiliar o parceiro.

A decisão de encorajar (ou não) o parceiro é, em muitos casos, bastante simples. Se o parceiro sai em um naipe (principalmente com uma honra), e você também tem uma honra neste naipe, você deve tentar dar esta boa notícia ao parceiro, para que ele possa continuar jogando este naipe sem angústia

Vejamos uma situação elementar:

Seu parceiro (Oeste) saiu com a Q contra o contrato em ST por Sul. O morto serviu sua seca, e agora você precisa escolher uma carta para jogar. Um jogador inexperiente sempre joga o 4. Um jogador mais atento sabe que ele deve tentar dizer ao parceiro que possui o Rei, e a maneira de se fazer isso é jogando uma carta alta — no caso, o 8. O nome desse sistema de sinalização (em que uma carta alta encoraja) é “chamada com grande”, que muitas vezes é chamado de “natural” (pois é a forma mais antiga e tradicional de sinalização). Ao sinalizar com a carta alta, você está dizendo ao parceiro que gostou do naipe escolhido para a saída, e que, se ele pegar a mão, ele pode continuar este naipe sem receio. Se, ao invés de jogar o 8, você jogar o 4, ele concluirá (corretamente) que você não gostou do naipe, e isso pode influenciar seu ataque subsequente; ele pode trocar de naipe, com consequências catastróficas para o ataque.

Veja um caso um pouco mais avançado:

Seu parceiro, mais uma vez, saiu com a Dama. E você, mais uma vez, deve jogar o Oito. Por que? Porque seu parceiro, ao sair com a Dama, promete o Valete (lembre-se das convenções de saída!). Ele pode ter QJ9, ou AQJ; nos dois casos, você precisa indicar que o naipe deve ser continuado, em razão da presença do 10 em sua mão. Esta carta é fundamental para a decisão posterior do seu parceiro de continuar (ou não) o naipe — imagine que o carteador tivesse AK105, para ver que desastre seria se seu parceiro voltasse paus neste caso.

Quando o morto tem uma honra, a situação é parecida:

Seu parceiro sai com o J e o morto joga pequena. É claro que você não joga o Ás (este Ás precisa ser poupado para capturar o Rei da mesa), mas não basta fazer isso — você precisa jogar o Oito, indicando ao parceiro que ele deve continuar o naipe quando fizer alguma vaza, para que vocês possam capturar o Rei da mesa e estabelecer as demais vazas no naipe.

É natural que o aluno pense, “mas e se minha maior carta for pequenininha?” Neste caso, você deve jogá-la da mesma forma, e cabe a seu parceiro ficar de sobreaviso, prestando atenção em todas as cartas (inclusive as pequenas), para determinar se sua carta é relativamente alta ou não. Por exemplo, suponha que na mão anterior você não tivesse o Ás (tendo apenas o Oito e o Seis). Agora, você não quer encorajar, e por isso joga o Seis. Será que seu parceiro não vai achar que o Seis é uma carta alta? Afinal de contas, o Seis não é lá uma carta tão baixa. Acontece que seu parceiro está vendo todas as cartas menores do que o Seis. Ele tem o Dois e o Três, e a mesa tem o Quatro e o Cinco. Ou seja, este caso é fácil — contanto que o parceiro esteja atento. Existem casos em que a decisão não é tão clara — e o carteador pode e deve atrapalhar esta decisão. Veremos como ele faz isso em uma lição futura.

SINALIZANDO COM UMA HONRA

Quando servimos uma honra na terceira posição — ou seja, estamos jogando uma honra que não pretende ganhar a vaza, pois o morto ou o parceiro já jogaram uma honra maior ainda — a posição é, além de uma chamada (estamos jogando uma carta alta!), o início de um desbloqueio. Por exemplo, suponha que seu parceiro saiu de pequena, e você tem J10x. Se o morto jogar pequena, você jogará o Dez. Porém, se o morto jogar uma carta maior do que o Valete, você deve chamar (pois possui honras e quer que o parceiro continue o naipe), e a maneira certa de fazer isso é jogando o Valete. O princípio geral é que chamamos com a maior das iguais (seja nossa chamada com uma honra, seja com uma carta pequena). Se temos (digamos) K762, devemos chamar com o Sete (e não com o Seis), o que facilita a vida do parceiro. E o princípio também se aplica às honras. A jogada de uma honra nessa situação indica a honra imediatamente inferior (ninguém joga uma honra à toa, sem esta outra honra!), e já inicia a desbloquear o naipe. Se jogamos a Dama, temos o Valete; se jogamos o Rei, temos a Dama.

SINALIZANDO AO BALDAR

É muito comum que você tenha a oportunidade de sinalizar enquanto descarta.

Seu parceiro (Oeste) sai com oJ contra o contrato de 3ST por Sul. O morto joga o6. Como você não tem nenhuma honra no naipe, você desencoraja, servindo o2. (Apesar de você ter quatro cartas no naipe, o que é uma boa notícia, você prefere sugerir que ele mude o ataque; olhando para as copas da mesa, fica claro por que razão você prefere que ele mude!). O carteador faz a vaza com o Ás.

Agora, suponha que o carteador tente, em primeiro lugar, fazer 4 vazas de paus, jogando o Ás e a Dama de sua mão e depois uma pequena para o Rei do morto. Agora, você precisa baldar. Qual carta deve ser descartada? O morto tem copas bastante ameaçadoras — seu parceiro não deve jogar este naipe sem um sinal bastante claro, que indique que você tem todas as honras que faltam. Ou seja, você deve baldar o Nove de copas (a carta mais alta possível que não abre mão de uma vaza).

Depois de fazer as três vazas em paus, o carteador tenta firmar seu outro naipe longo, ouros. Provavelmente, ele jogará o Dez da mesa e pequena de sua mão. Seu parceiro faz o Valete (a menor carta das iguais, com QJ), e, depois de sua balda (associada à carta que você jogou na primeira vaza, desencorajando espadas), não tem nenhum problema na mão, voltando copas. Note como suas duas oportunidades de sinalização (em espadas e em copas) contaram a mesma estória.

É uma mão muito simples, mas é também um bom exemplo sobre como sinalizar.